segunda-feira, 2 de abril de 2012

Rodeio de Porto Alegre


      Bah, depois de uma semana (ou um pouco mais) muito corrida, finalmente consegui um tempo para sentar aqui. Me sobrou uma brecha de tempo devido a uma noite sem aula, então vou aproveitar para escrever o que devia ter escrito há uma semana atrás, tendo como companheira uma boa taça de vinho tinto.


      Pois bem, muito se fala de rodeios. Se você frequenta o Facebook, vê imagens de animais maltratados, as vezes até mutilados. Horroriza-se com a crueldade humana em sua forma mais covarde. Revolta-se contra aqueles que agridem pobres animais indefesos, etc. Como o senso comum pode ser inimigo do conhecimento científico aproveitei que estava acontecendo, do dia 21 ao dia 25 de março, o 11º Rodeio de Porto Alegre. Não que eu tenha feito uma pesquisa sociológica no local, longe disso, mas aceitei o convite da Jenniffer Unfer e compareci ao evento.

      O acontecimento se dava no Harmonia, local classicamente ligado ao movimento regionalista gaúcho na nossa capital. Não sei se já fui lá em outro momento, mas pouco importa. O que importa é a imagem que me apareceu lá, e me perdoem os que me acharem deveras urbano pela descrição: comecei entrando em uma estrada de chão batido, perto do prédio da Justiça Federal e do Tribunal Regional Federal, sob a insistência da Jenniffer de que "não tem mão certa em rua de chão batido". Então tá. Estacionado perto de um morrinho e próximo a cerca, entre em um ambiente rustico. As pessoas ficavam em acampamentos, com barracas e caminhões com cobertura, tudo bastante improvisado - como, aliás, não teria sentido ser diferente, se estamos falando de uma campamento -. Achei legal de ver, pra quem não está acostumado, as pessoas reunidas, a improvisação, a terra, os animais em volta. Peguei uma vista panorâmica do acampamento onde o pessoal da Jenniffer, basicamente de pessoas vindas da cidade de Pantano Grande (ou com alguma ligação com o local).


     Depois de conhecer o local, fui dar uma volta pelo evento inteiro. Haviam outros acampamentos espalhados, muitos com pessoas treinando laçar pequenos modelos de madeira. Haviam banheiros químicos. Tinha cercados de madeira com animais. Tinha um ambiente com uma feirinha com vários produtos tradicionais, roupas, facas, cuias, até doces de pelotas - infelizmente, não tive tempo de olhar bem essa parte. Ao lado dela, entretanto, estava uma das partes mais movimentadas do rodeio - ou, ao menos, assim me pareceu: A arquibancada para quem veria as provas. Havia outras, mas, ao que me pareceu, o principal eram as provas de laço. Cavaleiros montados perseguiam bois através de uma arena, tendo como missão laça-los pelos chifres. A pontuação máxima era conferida a quem conseguisse laçar os dois chifres juntos, mas pormenores técnicos não interessam. Na realidade essa era uma das partes que me interessava mais na ida lá: e a questão dos maus tratos, que eu mesmo citei no começo?

     Pois bem, aqui eu eu fiquei feliz: não vi nada como aparece no Facebook. Ao que parece - e me perdoem pela possível impropriedade, pois falarei com o mesmo desconhecimento que teria se estivesse falando do rodeio de Porto alegre antes de ir - esses maus tratos, um algo próximo das touradas (e poderiam me xingar de novo), são mais comuns mais para o norte do país (o que significa, para nós gaúchos, tudo fora o Rio Grande do Sul). O máximo que eu vi foi os responsáveis por levar os bois de um lado ao outro da arena darem algumas batidas com uma faixa de couro neles, para que andassem. Não chega a ser bonito e alegre, mas não sejamos radicais. O centro do evento era o laço.


     Mas eu já falei demais e não citei nada ainda sobre comida. Eu me censuro por isso: estamos em um blog de culinária. A postagem a respeito do rodeio, no que concerne gastronomia, justifica-se por aquela questão singular das reuniões humanas: o homem parece não conseguir fazer nenhuma reunião minimamente significativa que não envolva, de algum modo, comer. Eu não tive a chance de apreciar muitos cardápios do que se poderia dizer uma "cozinha campeira" (aparentemente foi uma experiência que eu perdi por não ter ido na noite anterior). Mas enfim, Rio Grande do Sul é churrasco. E aqui eles faziam em uma churrasqueira um pouco improvisada, com lenha, mas no espeto, como nos deixaram os índios a tradição.


     Mais uma vez, vem o meu desconhecimento e a certeza de que ainda não sei nada. Muito embora seja algo muito simples, eu não tinha comido - nem, sequer, visto - fazer churrasco salgando a carne quando ela já está quase pronta. Não sei se esse é o jeito mais tradicional. Já havia lido a respeito no livro "O Rio Grande em Receitas", de Carlos Castillo, mas nunca havia tentado fazer. É diferente, e não vou dizer que vou mudar o jeito que faço churrasco, pois estaria mentindo. Por um lado, parece que a carne perde menos suculência. Por outro eu observei um certo desequilíbrio de tempero. Nada que comprometa, eu me foi servido um pedaço de carne de ovelha com arroz, e estava ótimo.


     Então, por fim, foi uma experiência diferente. Interessante, divertida, e diferente. Até repeti a dose e fui no dia seguinte, das sete as onze da noite, até o final da prova de laço. Não mudei nenhuma filosofia culinária - até por que não era o objetivo -, mas sai, mais uma vez, certo de que vale a pena sair da zona de conforto.




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